Fonte: Sunday Times Style

 

Querido Senhor, na minha próxima vida, eu posso voltar como Florence Pugh? Não é da atuação que eu preciso, embora, sim, eu me imaginaria aparecendo em Midsommar, Little Women e The Little Drummer Girl, poderia ser divertido. Não é a indicação para o Oscar por Little Women, nem se eu tivesse gostado da sacola de brindes. Não se trata do namorado da lista de ator-escritor-diretor, Zach Braff, com quem eu compartilharia uma casa e um cachorro em Los Angeles, e realmente, não se trata de ter 25 anos novamente e ser bastante bonita, com o rosto de um impressionante anjo de Botticelli. Não, eu acho que é porque eu gostaria da sensação de clara confiança que ela possui e também da positividade determinada – um entusiasmo que irradia enquanto ela se conecta ao Zoom.

“Eu amei suas plantas”, ela me diz com sua voz rouca e profunda, observando meu fundo. Vestindo uma blusa de verão e com seu cabelo loiro amarrado de um jeito frouxo para trás. Ela está na casa de um amigo em Oxfordshire, em algum tipo de estudo – atrás dela está uma fila de potes e vasos de bom gosto. “Obrigado”, eu respondo, “Elas estão morrendo”. “Elas não estão mortas, são lindas”, ela responde de volta. “Elas estão apenas dormindo um pouco”.

Se você não conhece Pugh, o que é estranho – não só porque agora ela é uma verdadeira estrela, mas porque faz a tela queimar em qualquer coisa em que ela apareça. Muitos, por exemplo, vão se lembrar de Midsommar, um horror folclórico de um povo misterioso, situado em uma comunidade Scandi, onde, como a ungida Rainha de Maio (vestida em um floral gigante), sua personagem, Dani, viu sua sanidade arder em chamas. Outros vão adorar sua performance em Fighting with My Family, fazendo o papel da lutadora Paige da vida real, enquanto alguns talvez prefiram um tipo diferente – ela passou muito tempo da pandemia fazendo vídeos de culinária para seu público do Instagram, mas para mim é sua Amy em Little Women, onde ela faz a irmã mais nova das March, verdadeiramente adorável em vez da pequena pirralha. “Eu não vou fazer isso”, diz ela à Laurie de Timothée Chalamet com firmeza, repreendendo-o por brincar com seus sentimentos. “Não quando eu passei toda minha vida amando você”.

Amy se sente muito como Pugh: calorosa, intensa, vulnerável, com um pouco de fervor. Mas falando com ela, fica claro que não tem interesse nisso – ela fez uma pausa em Cotswolds para, como ela diz, “cheirar as árvores”, ela também está “longe com as fadas” (distraída em seu próprio mundo). Suas vestes Boho-Artsy são contrariadas por um rigor sem vergonha. Em certo ponto, eu trago uma citação de Cate Shortland, que dirigiu Pugh em seu último filme, Viúva Negra. Este espetáculo da Marvel, que vê Pugh em confronto com Scarlett Johansson, deve selar a próxima etapa de sua digna ascensão, Shortland disse (agradecida) que Pugh “Tem uma quantidade saudável de raiva nela”, o que eu adorava, mas quando eu tento citar isso de volta, Pugh não aceita. “Não tem raiva em mim”, diz ela, enrugando seu nariz. “Acho que não foi essa a citação”, ela claramente não aceitou.

Quer ser rotulada – ou talvez ela queira apenas definir tudo em seus próprios termos. Ela observou outro dia que recebeu algumas “reviradas de olhos” no trabalho simplesmente por pedir algo que muitos, muitos homens pedem, sem problemas, então sim, ela gosta de “empurrar cada ideia ao máximo” e muitas vezes questiona as coisas com seus diretores, mas “Eu não estava com raiva”, ela conclui, ainda sorrindo pacientemente. “Acho que estou investida”.

 

Pugh é a terceira de quatro crianças – depois de Arabella e Sebastian, que atua e canta como Toby Sebastian, e à frente de Rafaela, ou “Mole”. Seu pai é dono de um restaurante bem sucedido em Oxford, daí seu amor pela comida – e pela companhia. “Somos uma família grande e barulhenta”, ela diz. “Adoramos atenção, performar… era tudo o que queríamos desde pequenos”. Geralmente, entre quatro crianças, não há um mais calmo? “Nãooo!”, ela grita. “Nem pensar. Todos nós adoramos contar nosso lado da história”.

 

Pugh sabia que ela estava em algo cedo demais quando interpretou a Virgem Maria com sotaque de Yorkshire (condado da Inglaterra) na peça da escola e todos riram, mas uma experiência ainda mais formativa foi ter que lidar com a traqueomalácia, onde, basicamente, as suas vias respiratórias colapsam e você tem dificuldade para respirar. “É a razão pela qual eu tenho uma voz profunda e por que pareço um ganso quando rio”, diz ela. É também a razão pela qual o clã Pugh passou três anos na Espanha, quando ela tinha cinco a oito anos de idade, na tentativa de conseguir um ar melhor – “Só o fato de sermos ouriços e estarmos correndo sem roupa no mar nos preservou quando éramos crianças por um pouco mais de tempo, suponho”. Porém, mais precisamente, a doença impediu seu avanço. “Eu odiava ser a criança que ‘não conseguia fazer isso'” diz ela.

“Eu não estava disposta a isso. Eu não queria fazer isso. Então sempre tentei me envolver e ser ativa. Acho que isso continuou comigo como adulta”.

Ela teve sua grande chance, enquanto ainda estava na escola particular em Oxford, depois de assistir a uma audição aberta para The Falling, um filme intrigante da autora indie britânica Carol Morley. Isso a colocou imediatamente no mapa.

“Tenho tanta sorte por ter sido um filme real” e “real”, ela quer dizer “bom”. Seu próximo trabalho, no entanto, mostrou a ela um mundo totalmente diferente. Pugh conseguiu um papel em um piloto em Los Angeles, Studio City, e disseram prontamente para ela perder peso, fazer as sobrancelhas e fazer algo que era tão “não eu”, ela murmura agora. “Eu era um bebê e pensei que isso era Hollywood” diz ela tristemente.

“E eu pensei, ok, agora é assim que funciona aqui. Isso é o que eles fazem. E então me senti estúpida porque pensei, bem, é claro, como eu poderia vir para Los Angeles e não ter esperado que meu peso fosse discutido em uma reunião?”.

Studio City não a escolheu, então ela voltou para casa, abalada, e decidiu focar em indies mais interessantes, com óbvio sucesso. Tudo isso levou, vários anos depois até Viúva Negra.
Essa é sua volta a Hollywood propriamente dita nos seus próprios termos? “Quero dizer… claro!”, ela responde.

Embora Pugh esteja ciente de que alguns podem pensar que é uma escolha de esquerda, para ela fazia todo o sentido, até por causa da agenda feminista do filme, “É para todas as mulheres”, ela me promete, “Não se trata apenas de mulheres sendo poderosas e fortes, trata-se de mulheres que precisam continuar e sobreviver”.

No filme ela interpreta Yelena, uma figura fraterna para a Viúva Negra de Johansson, e dizer que elas tem problemas seria um eufemismo: “Muitas de nossas cenas emocionais estão no meio do combate”. Como uma “pessoa muito física” ela adorou o treinamento e a preparação e fez o máximo de cenas de combate que pôde.

“Depois de ter lutado em Fighting With My Family adorei levar uma surra”, diz ela. E se a Viúva Negra é uma lutadora cara de Tinseltown, ela insiste que não sentiu nenhuma pressão para se conformar desta vez.

“Dependia de mim” ela continua, “Se eu quisesse ficar em forma, ótimo. Se eu não quisesse, ótimo. O quão difícil eu queria ir dependia de mim” Ela diz que até mesmo deu algumas sugestões sobre os trajes.

“Eu não queria que Yelena entrasse, suponho, na velha silhueta de uma mulher brigando”. Ela começa a traçar alguma coisa horrível no ar, mas se detém. “Eu queria que ela estivesse com roupas que ela pudesse se mover”.

A quarentena deu a ela a oportunidade de fazer uma pausa, mas os resultados a surpreenderam. “Percebi que estava passando por um momento difícil com ansiedade e nunca tinha tido isso antes”, diz ela.

“Normalmente estou sempre em movimento. E quando tudo isso estava calmo e parado, fiquei realmente surpresa ao ver, ou sentir, que ainda tinha uma quantidade louca de adrenalina correndo pelas minhas veias”. Quando pergunto por quê, ela parece mais abatida. “Bem, eu não acho que tenha ajudado muito o fato de estarmos passando por muita coisa”, o “nós” é ela e Braff.

“Um de nossos melhores amigos estava morrendo de Covid”, ela se refere ao amigo deles, o ator da Broadway, Nick Cordero, que morreu para o vírus em Julho do ano passado, e cuja esposa e filho de um ano de idade viviam na casa de hóspedes de Braff enquanto seu amigo estava sendo tratado no hospital.

“Então é óbvio que acrescentou muitas emoções ao coquetel”. Mas ela também acha que foi uma coisa mais ampla e existencial: “Eu não tenho ansiedade quando estou no trabalho, porque sinto que estou no lugar certo, Isso é o que eu deveria estar fazendo”.

Braff, no entanto. Talvez seja aqui que o otimismo de Pugh brilha mais intensamente. Ela tem estado com a estrela de Scrubs, agora um aclamado escritor e diretor, por alguns anos e os dois mantiveram um perfil discreto.

Quando Pugh postou uma foto rara deles juntos no início deste ano, desejando a ele um feliz (46º) aniversário, a imagem foi rapidamente recebida com comentários horríveis, mais focados em sua diferença de idade, e Pugh, que tinha se tornado a favorita do Instagram por conta de seus bate-papos sobre culinária, teve que fazer um tipo de vídeo diferente desta vez, pedindo para as pessoas que continuassem positivas em sua página.

“Me desculpe”, eu digo, “Mas você não acha que esse é um objetivo um pouco utópico?”.

“É tão estranho para mim ir na página de alguém e comentar merda”, ela protesta. “Essa não é a minha natureza, ir e intimidar por causa do bullying. É uma coisa tão estranha que começamos a ficar bem nos últimos dez anos de mídia social. O que acontece é que as pessoas querem que o Instagram seja um lugar melhor, eles querem ser felizes. Não me importo se você não gosta de mim, tudo bem. Nesse caso não me siga”

“Não é que eles não gostem de você, eu tento ajudar, “Não é por que você tem um namorado que é 20 anos mais velho?”. “Acho que isso incomoda as pessoas por não ser quem elas esperavam”, ela concorda. Com quem ela deveria estar, então? Timothée?

“Exatamente. Exatamente. Mas é a minha vida e não estou fazendo nada para agradar as pessoas ou torná-la uma manchete ou uma história melhor. Eu também quero ser uma pessoa!”