Com a sua ascenção em 2018 e sua explosão em 2019, Florence Pugh chegou a ser indicada ao Oscar deste ano e, portanto, atraiu os olhares do mundo inteiro. Com isso, sua vida inteira e fotos antigas de suas redes sociais foram trazidas à tona e gerou algumas polêmicas que, de certa forma, já haviam sido esquecidas.

No entanto, recentemente, Florence fez questão de deixar claro que anda estudando e procurando entender melhor sobre questões sociais e se demonstra muito engajada no movimento #BlackLivesMatter, tendo aparecido em suas redes sociais exclusivamente para pedir ajuda e dar visibilidade ao movimento. Durante a tarde de ontem, Florence trouxe à tona as polêmicas antigas e pediu sinceras desculpas pelas fotos, admitindo que agiu de forma ignorante e que realmente cometeu apropriação cultural e pedindo desculpas, afirmando que estava aprendendo.

Ressaltamos que Florence tem apenas 24 anos e as fotos são de antes de ela sequer ser maior de idade e todos nós, como seres humanos, iremos errar, o importante é reconhecer o erro e aprender com o mesmo. Veja a carta publicada por Florence em seu Instagram e a respectiva tradução:

 

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To see change I must be part of the change.

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Essas últimas quatro semanas têm sido enormes. O mundo está tentando fazer diferença e eu estou aprendendo um maremoto de informações que, sinceramente, sempre estiveram ali mas eu não tinha ciência.
Eu dei o meu melhor para postar, aprender, repassar o que eu aprendi para os outros e, é claro, ecoar as vozes daqueles que não possuem uma plataforma para compartilhar a sabedoria deles.

Como muitas pessoas, eu li, escutei, assinei, doei, li novamente, silenciei a minha fragilidade branca e realmente quis rastrear instâncias na minha vida em que eu fui culpada.
Sejam grandes ou pequenas ações, nós TEMOS que olhar para nós mesmos e ver como nós estamos respondendo a este problema.
Uma parte que eu identifiquei nas minhas próprias ações foi apropriação cultural, que chamou a minha atenção quando um fã no ano passado apontou para uma foto que eu postei quando eu tinha 17 anos.

Eu ouvi pela primeira vez o termo apropriação cultural quando eu tinha 18 anos.
Eu conheci a minha amiga Holly (17 anos) que é uma fotógrafa de ensaios fotográficos em Londres.
Nós terminamos o dia tomando uma cerveja, quando eu, orgulhosamente, apontei para as minhas recentes “tranças africanas”. Aquele veral, tapetes vermelhos estavam cheios de pessoas famosas, mulheres brancas com um lado do cabelo raspado ou trançado. Eu lembro que em todas as revistas havia uma versão de “Como Fazer Sozinha”.
Eu perguntei para a Holly se ela tinha gostado das tranças, ela pausou e disse “Err… Na minha escola, você não tem permissão de fazer isto mais.”
Eu engasguei pensando que isto era tão injusto, “Por quê?”
Ela respondeu “É apropriação cultural. A escola viu a necessidade de bani-las.” Ela começou a me explicar o que era apropriação cultural, a história e a mágoa de como quando mulheres pretas fazem isto, elas são zoadas e julgadas, mas quando mulheres brancas fazem isto, só assim é visto como legal.
Era muito verdade. Eu conseguia ver como a cultura preta estava sendo tão obviamente explorada.
Eu fiquei na defensiva e confusa, a fragilidade branca surgindo em sua forma mais pura e simples.
Eu não quis magoar ninguém e fiquei perplexa com como eu nunca tinha ouvido aquele termo antes.

Quando eu tinha 8 anos de idade, eu fiz amizade com uma dona de uma loja indiana em Oxford, que eu visitava regularmente. Esta mulher vendia tecidos, incenso, henna, pulseiras, capas de travesseiro, joias, adesivos para o rosto, adesivos para o corpo… O sonho de uma criança de 8 anos de idade. Ela me dava as coisas de presente, me ensinava a usar Kohl, me ensinava a onde colocar os adesivos mostrando o dela, mostrando como ela usava henna nas unhas dela, porque era assim que as mulheres da cultura dela faziam.
Ela estava empolgada em compartilhar a cultura dela comigo e eu estava empolgada em aprender.
Não havia um verão em que eu não colocava henna nas minhas mãos, pés, nas mãos e pés da minha família, dos meus amigos – eu estava obcecada.
Durante o verão de 2017, adesivos e henna entraram na moda.
Toda loja no topo da rua estava vendendo as versões reimaginadas desta cultura. Eu lembro de ver grandes marcas de maquiagem vendendo adesivos e canetas de henna “Fáceis! Com secagem rápida” em grandes farmácias comerciais.
Até mesmo a arte de criar estes desenhos complexos estavam sendo simplificados.
Ninguém se importava com a origem, uma cultura estava sendo abusada por lucro.
Eu me senti envergonhada. Eu senti tristeza pelas pequenas lojas gerenciadas por famílias indianas do país inteiro, vendo a cultura e religião deles barateados em todos os lugares.
Eu pensei que era porque tinham me ensinado de forma diferente, então eu era uma exceção.
E aqui está o problema:
Na verdade eu não estava sendo respeitosa em COMO eu estava usando: eu usava esta cultura apenas nos meus termos, para festas, jantares. Eu também estava desrespeitando a beleza da religião deles que tinha me sido ensinada há alguns anos.

A fã que me expôs no Instagram foi devido à apropriação cultural do rastafari. Me lembraram de uma foto de quando eu tinha 17 anos. Eu trancei o meu cabelo e pintei um gorro com as cores da bandeira jamaicana e fui para a casa de uma amiga; orgulhosa da minha criação rastafari. E eu postei sobre isto no dia seguinte com uma legenda que parafraseava a letra da música ‘Boombastic’ de Shaggy.
Eu sinto vergonha de tantas coisas dessas poucas frases.
1) Eu tinha esquecido. Quão cruel. Por 8 anos eu não tinha ideia de quantas pessoas eu estava ofendendo.
2) Àquela época, eu sinceramente não achei que eu estava fazendo algo errado. Crescer como branca e privilegiada me permitiu chegar tão longe e não saber.
3) Nos comentários abaixo eu estava ainda mais orgulhosa de ter feito com o meu próprio cabelo.

Burrice nem chega perto, eu era ignorante. Eu era iletrada.

Eu cresci vendo os meus ídolos famosos do pop adotando culturas de formas parecidas, então eu não achei que eu estava errada ao fazer isto também. Agora eu preciso estar ciente de que as pessoas estão se inspirando em mim e eu devo assumir minhas próprias ações infelizes.
Culturas e religiões pretas, indianas, nativo americanas e asiáticas são constantemente usadas e abusadas em cada estação de venda.
Não é errado apreciar a beleza de uma cultura, mas revendê-las pelo bem de uma marca de moda e por dinheiro com certeza é.

Eu peço desculpas de verdade à todos vocês que se sentiram ofendidos por anos ou até mesmo apenas recentemente.
Eu não posso destituir as ações que eu tive há alguns anos, mas eu acredito que nós, que fomos cegados para estas coisas devemos reconhecer os nossos erros, as nossas ignorâncias e os nossos privilégios brancos e eu me desculpo profundamente que demorou tanto tempo.

A atriz Alexandra Shipp fez um lindo comentário na publicação feita por Florence:

Tão lindamente colocado! Eu estou constantemente apaixonada por você e pela sua habilidade não só de auto reflexão, mas de implementar as coisas que você aprendeu para educar. É algo que eu acho que todos nós temos dificuldades, mas especialmente agora, mas a sua eloquência e destemor apenas inspira e facilita o entendimento e a empatia. Eu te amo muito e eu sou muito grata por você existir! 💋